domingo, 7 de novembro de 2010

os anos e as cidades

Vi o dia nascendo e subindo em chamas pelo rio impuro da cidade, uma cobra sorrateira serpenteia, os acúmulos de restos espalhados na superfície da beleza morta, que era selvagem, agora trancafiada no calabouço com argamassa. Os raios do dia trouxeram os jornais, dentro de cada um, uma notícia inexata das palavras que rondam as calçadas e os porões dos prostíbulos que todo patife anseia conhecer. Nos trens e metrôs, tantas vidas se entrelaçam, só aparentemente, num instante moroso de calor inconveniente, num aperto inconsolado no caminho entre-estações; nas chegadas, multidões escorregam até as escadas pelas plataformas úmidas, como ratos que patinham pelas calhas, um bolo de roupas e carne, um odor aqui, outro ali, rostos tão lânguidos, tão indecifráveis.
O sol escorre e transcorre pela vísceras dos edifícios supervalorizados, em locais tão caros de se viver, que se escolhe morar ou ter café-da-manhã. Esta era a cidade amada, que agora jorra teores pérfidos e alusões de grandezas desencontradas, que nos faz prisioneiros de uma guerra sacra em nome dos valores outorgados por mãos polutas, os abutres em arranha-céus e seu grande poder contra a auto-estima do homem comum, come-lhes as vontades lassas tal como fígados abertos dos animais da estrada. E de tantas aglomerações, as filas por de trás dos vidros fundidos dos bancos e lanchonetes, a vida é uma espera, uma espera extenuante entre sábados e feriados. A manhã vem aí, tingindo o concreto rachado ornado de bitucas e das sobras do banquete noturno, nascendo novamente, porém com ela nada de novo; a capital do esquecimento olvidou a si mesma e o que sobrou não bastou - não bastou para saciar a fome das bocas que expelem seu nome cinzento e dissaboroso, o paradoxo que colapsa sobre a própria cauda - quimera, teu nome é cidade!

terça-feira, 2 de novembro de 2010

humores

Já havia passado dias inexpugnáveis lendo palavras azedas nos livros, em sua maioria tristonhos e um pouco lascivos. Não havia o que ser feito, esperava pela verdade atrás da porta, decidi quebrar a parede e ver o tijolo nu, o pó escalando o ar do cômodo iluminado no fim da tarde, um sol de setembro entrelaçava-se com as migalhas das rachaduras, minha mulher deve ter ouvido o barulho estrondoso.

- Que foi isso aí em cima?

Nada, fique quieta, estou tentando enxergar enquanto penso, pensar enquanto vejo, e não posso lhe ouvir ao mesmo tempo que tento abraçar o mundo. Fique quieta, sim. A realidade ia acontecendo nos meus pensamentos conforme eu caminhava para entendê-los, e compreender também por que havia feito o buraco. Tentei ver o que havia na outra sala, era o escritório, o computador e a escrivaninha tinham um ar pesaroso naquela atmosfera apagada, quase sem iluminação, a única que chegava era a que passava pelo rombo. Notei como aquele feriado em casa estava me prendendo ali, a forma como me tornava inerte e sem ambições conforme ansiava por uma vida mais pacata dentro do lar. Não queria mais essa solidão esporádica, um pouco com a mulher, um pouco no quarto. Eu deveria sair, ir beber nos bares e cair sobre as poças das chuvas que varrem os miseráveis e patifes, meu espírito sussurrava a mim que fosse buscar o veneno fresco em forma de cicuta sobre a relva orvalhada, mas antes eu escreveria um ensaio para divagar sobre as questões que atormentam qualquer humano, coisas como felicidade, culpa, incompletitude e a falta de sexo nos sábados à noite. Eu contornaria meus próprios problemas, como o devedor astuto que por muitas vezes fugiu do agiota, encolhendo-se e correndo. Mas então, agora, devo caçar os corvos e dançar com as raposas, que também intento caçar, tudo que caminhar e respirar será presa para mim e essa língua afiada, é um sentimento agudo que sinto quando penso na mudança que tenho que fazer para me tornar glorioso, redirecionar as rotas e os ventos e rezar para que sejam o bastante. Talvez devesse começar tudo de novo. Do ponto de partida. Peguei o martelo, vou subir a montanha e destruir meu criador, verei se dele sai algum novo caráter mais apresentável, preciso de algo para o baile de gala, uma aparência que transcreva a loucura que me tornei.