segunda-feira, 4 de outubro de 2010

divisas

Já prepara a cara de pedir favor, pois acho que estou prestes a ouvir você chamar os cachorros de volta, que eram nossos, agora é meu e seu, cada coisa repartida sem segredo, no entanto escancarada para ser deduzida pelos contadores e advogados. Quando apagar a luz, a gente sabe que está sozinho no escuro, e isso eu não tenho que dividir mais, nem essa sensação do sopro que entra por debaixo da coberta, pela fresta que deixei aberta; não, nada disso vai ser esmigalhado.
Certa vez, quando assobiávamos o mesmo barulho, chegamos a dividir as mesmas palavras, e agora até elas estão em malas diferentes, separadas com etiquetas onde se inscrevem nomes remarcados por um tipo de estranheza, assim, quando se olha para algo que não se pode compreender, porém só se pode olhar e acenar com a cabeça concordante.
Preto, branco, verde, branco, vermelho, branco, azul - as meias da gaveta com as cartas por baixo, que serão recordadas e guardadas por um tempo, até que o esquecimento carregue-as para algum incêndio. Hoje, o que se acaba tende à guerra, pilhar e fazer espólios até do amor, da amizade, e de sentidos ainda menores.
Não me interprete mal, quando olhei, enxerguei com meus olhos, não com os seus, então não se engane, não sou tão condescendente assim; vejo as arestas que você tentou podar, o corte profundo nos dedos que deixaram sua marca. Como posso acreditar que por trás de um rosto tão encardido há um sorriso perdido, que não existe mais, mas que foi verdade alguma vez, num bar ou de frente para uma vitrine?

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